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:: A vez dos supermagros



(Jornal da Tarde, 18/02/2008)


Homens aderem ao ‘look fiapo’


Quando Kate Moss passou a estampar, em pele e osso, as campanhas da grife americana Calvin Klein, no início da década de 1990, derrubando as curvas generosas de Cindy Crawford e Claudia Schiffer, teve início uma era de mulheres subnutridas, loucas por dieta, que ainda não terminou. Ser esquálida virou regra de elegância. O resultado é conhecido - e até trágico.

Hoje, enquanto o mundo combate o insano culto feminino ao peso-pena e suas conseqüências, como a anorexia - o debate foi retomado na última semana de moda de Londres, no dia 11 -, o look fiapo ganha um fôlego surpreendente. Agora, entre os homens.

Bíceps e tanquinhos tiveram pouquíssimo espaço nos desfiles masculinos de Paris e Milão, realizados em janeiro. Em vez de modelos sarados, meninos-vara tomaram conta das passarelas. “Até mesmo as pessoas já acostumadas ao novo estilo pareciam atônitas diante da imensa quantidade de modelos com peitos encolhidos, rostos emaciados, um jeito subnutrido. A tendência seguiu a legião fashion para Nova York e foi comprovada de maneira esmagadora pela seleção dos modelos nos desfiles de Duckie Brown, Thom Browne, Patrik Ervell, Robert Geller e Marc by Marc Jacobs”, publicou o jornal americano ‘The New York Times’ no último dia 10. “Modelos como o russo Stas Svetlichnyyof exemplificavam a nova norma. O maior peso que Svetlichnyyof já atingiu foi de 65 kg. Ele tem 1,83m e uma cintura de 70 cm.”

Embora escancaradas nas últimas temporadas de moda internacionais, as medidas masculinas superestreitas são mais antigas: apareceram pela primeira vez durante a Paris Fashion Week de 2001. Naquele ano, Hedi Slimane estreava como diretor de estilo da grife francesa Dior Homme - o braço ‘macho’ da gigante Dior -, inaugurando uma modelagem extremamente enxuta em modelos mais enxutos ainda. Irradiadora mundial de tendências, a marca lançava a semente, que começou a germinar nos anos seguintes, ‘secando’ aos poucos as formas masculinas, e floresceu por completo em 2008, numa quase caricatura do homem esquálido. “Até a Dolce&Gabbana e a Dsquared, grifes que sempre investiram no culto ao corpo, na sensualidade, usaram modelos supermagros em seus desfiles”, aponta Maurício Lobo, consultor de moda do Senac especializado no guarda-roupa deles.

Como tudo o que aparece nas passarelas européias e americanas acaba nas brasileiras, a estreita novidade surgiu também na São Paulo Fashion Week. Os magrelos bateram cartão nas coleções masculinas da última edição do evento, realizada em janeiro. Alexandre Herchcovitch, Fause Haten, Lino Villaventura e V.Rom foram algumas delas. “Por aqui, a tendência vem se fortalecendo há umas quatro temporadas. Começou com o Herchcovitch, que sempre teve preferência por meninos magros”, conta Vinícius Freire, booker da Ford Models Brasil.

A própria Ford aposta fichas graúdas no novo homem desenhado pela Dior - e já abastece a grife com seus talentos. Max Motta, 17 anos (foto), 1,86 m e 64 kg, foi o vencedor do Supermodel Brazil 2007, concurso anual de modelos promovido pela agência, considerado o mais importante do mundo. “Ser magro me ajudou com certeza”, comemora Max. Mesmo novatíssimo, o brasileiro estreou nas passarelas com status de top: enviado aos castings de Paris, fechou o último desfile de inverno da Dior Homme, em janeiro, com exclusividade.

Serão as trevas o destino dos sarados no mundo fashion? Maurício Lobo, do Senac, tranquiliza quem tira o sustento dos próprios bíceps. Para o especialista, a tendência varapau é passageira - ao menos no Brasil. “Não tem nada a ver com o homem latino. E, comercialmente, não vinga. O consumidor final não tem o desejo de ficar daquele jeito (mostrado na passarela). O Brasil vende mais com a sensualidade.” Segundo Lobo, as grifes tupiniquins usam a nova estética apenas para se mostrarem antenadas. “As formadoras de opinião colocam entre 30% e 40% de magros nas coleções, nunca 100%.” Vinícius Freire concorda que o espaço dos modelos-tanquinho não se altera. “A tendência dos supermagros é restrita aos desfiles. Comerciais e anúncios precisam de gente saudável, vendável.”


Por Márcio Oyama


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