Márcio Oyama :: jornalista e webdesigner

:: Márcio Oyama > Profissional > Reportagens


<<




:: Não desista de estudar



(Jornal da Tarde, 24/04/2006)


Crença de que o cérebro passa a funcionar menos depois dos 40 anos é infundada, atestam médicos


Beirando os 40 anos, você resolveu voltar a estudar - concluir o ensino médio, fazer uma faculdade, aprender a tocar um instrumento musical, a falar outra língua -, mas desistiu por causa da idade. “Estou muito velho para isso”, pensou. “Meu cérebro não absorve mais conhecimentos.”

Ou, na mesma faixa etária, você se lançou de novo nos livros e nas apostilas, mas, quando o curso começou, desanimou. Seus colegas, muito mais novos, aprendem com a rapidez que você perdeu há 20 anos e te deixam para trás.

Sim, seu cérebro pode estar cansado. Mas não culpe a idade por isso. E nem use esse “cansaço cerebral” como desculpa para abandonar o caderno. Segundo neurologistas, muitas velas assopradas não impedem ninguém de (re) começar a estudar.

Em primeiro lugar, a crença de que a partir dos 35 ou 40 anos os neurônios perdem a “eficiência” é falsa. “Não existe uma idade em que o cérebro começa a funcionar menos”, diz o neurologista Marco Aurélio Santos Macedo, da Diagnósticos da América (Dasa). “Com o passar do tempo, há, sim, a morte de neurônios e a perda de sinapses (conexões entre as células). Mas o início destas perdas está relacionada a fatores como carga genética, hábitos e estilos de vida, uso de substâncias tóxicas, doenças preexistentes, entre outros”, explica.

A falta de uma vida saudável e de estímulos intelectuais (como a leitura) também acelera a perda das células, completa o neurologista Luiz Celso Vilanova, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “O cérebro precisa ser constantemente estimulado.”

Mesmo com a perda dos neurônios, ninguém fica “imprestável” para o aprendizado, atestam os dois médicos. Ainda que “desfalcada”, sua cabeça absorve muito conhecimento. “Pessoas mais velhas não têm dificuldade de aprendizado, só aprendem de maneira diferente”, diz Vilanova. “Com a perda dos neurônios, o cérebro ‘trabalha’ mais lentamente, dando-nos a falsa impressão de que está ‘falhando’. Mas isso não é verdade. E não nos impede de aprender algo novo”, emenda Macedo.

Se o seu cérebro não está impedido pela idade de absorver novos conceitos, por que, então, é tão difícil decorar fórmulas, ler partituras ou aprender novas línguas depois dos 40 anos? A professora Rosana Cardoso do Nascimento, de 40 - que ensina inglês e português há 15 anos para crianças e adultos -, aponta uma resposta: as barreiras que nós mesmo criamos para o aprendizado. “Quanto mais velhos ficamos, mais barreiras, mais dogmas inventamos. Dizemos: ‘não vou aprender isso nunca; não na minha idade’. E não aprendemos.”


Por Márcio Oyama


<<