:: Márcio Oyama > Profissional > Reportagens


<<




:: Básica, barata e preta



(Jornal da Tarde, 19/02/2009)


Assim será a roupa dos tempos de vacas magras que vêm por aí. Contra a crise na moda, consumidores e lojistas investem no popular ‘menos é mais’


Não é em cima do salto alto que a moda e os seus consumidores estão enfrentando a crise financeira global, mas com os pés bem no chão. A indústria fashion se arma contra o furacão que se anuncia tingindo as suas próximas coleções de preto - cor que vende na alegria e na tristeza, na riqueza e na pobreza - e limando excessos, como mostrou a São Paulo Fashion Week Inverno 2009, em janeiro. Já a clientela tem na mudança de hábito o seu grande trunfo para sobreviver à recessão: a ordem é segurar o cartão de crédito ou buscar cabideiros alternativos, como os das feirinhas da cidade.

“O preto é a cor mais aceita pelos consumidores, tem um poder enorme de sensibilizá-los, em qualquer cenário econômico”, diz Rufino Luís Martins, professor de Varejo da pós-graduação em Moda do Senac-SP. Assim, ao dominar a cartela dos estilistas da SPFW, o breu mostrou que a primeira arma de quem vive de roupas é a defesa: em tempos de crise, ninguém quer arriscar, para não encalhar nos estoques. “A recessão deixa a moda menos audaciosa e as cores tradicionais retornam. Com o preto, a chance de erro é mínima”, completa Nivaldo Ferraz Ferreira Júnior, vice-presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) do Bom Retiro.

Até quem fez carreira nas passarelas usando misturas mirabolantes de tons, tecidos e estampas, como a estilista Erika Ikezili, optou pela mais sisuda das cores na sua coleção de inverno. A designer, entretanto, prefere ver luz na penumbra. “Tem um reflexo da crise nisso, mas também enxergo uma vontade de moda. Nós, estilistas, estamos de olho no mercado, sabemos que não haverá crescimentos significativos (de vendas) neste ano, mas o clima não é de tanto pessimismo.”

Martins e Júnior compartilham da opinião - e até arriscam um otimismo. “Com a alta do dólar, as roupas importadas estão muito caras, o que favorece a indústria brasileira”, diz o professor. “Os consumidores vão deixar de comprar bens duráveis, como carros e celulares, e optar pelos menos duráveis, como as roupas”, emenda o vice-presidente da CDL. “No Bom Retiro, a perspectiva de crescimento para este ano é de 15%.”

Se para estilistas e lojistas o preto ainda não traz escuridão, entre os consumidores, o luto no quesito ‘sacolas de compras novas’ já é bem real. O engenheiro de software Flávio Lenhari, de 29 anos, cliente voraz de grifes graúdas como Osklen, Redley, Comme des Garçons e Marc Jacobs, fechou o bolso para acréscimos no guarda-roupa: “Cortei totalmente os gastos com vestuário por seis meses por conta dos aumentos que pesaram no orçamento, em itens como aluguel, alimentação, IPVA, seguro de vida, automóvel, saúde… Tive de escolher entre manter minha vida social ativa e comprar roupas de grife. Os dois não dá mais.”

Mesmo quem não ostenta no armário etiquetas tão valiosas e se deleita na moda dos grandes magazines está ‘fechando para balanço’. “Eu costumo comprar muito na Renner e na C&A, mas, como nos últimos meses o escritório da minha mãe (de testes psicotécnicos) anda sem muito movimento, por causa da crise, tive de suspender as compras”, conta a estudante Heloisa Pantoja, de 21 anos.

Para a publicitária Luciene Sobreira, de 26, feirinhas descoladas da cidade, sobretudo da Praça Benedito Calixto, em Pinheiros, são a salvação. Fã de marcas como Forum e Zara, a paulistana recorre às barraquinhas quando a conta bancária grita. “Lá, sempre tem novos designers, que oferecem, além de novidades e coisas exclusivas, bons preços.” Luciene exemplifica uma teoria do professor Martins, do Senac: “O cliente sempre associa o seu desejo à marca. Mas, quando a coisa aperta, ele mantém o desejo, mas renuncia à marca.”


Por Márcio Oyama


<<