Márcio Oyama :: jornalista e webdesigner

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:: Carta a um jovem cristão



(13/08/2011)


Grande Rô!

Agradeço também o apoio, a consideração e, sobretudo, a honestidade. Como bem disse o Júnior, não pretendíamos fazer a revelação por e-mail, coletiva, mas de fato conversar com cada um, já que dúvidas, questionamentos e afins surgiriam naturalmente - e seria muito melhor se eu e meu irmão pudéssemos explicar as nossas posições individualmente.

Enfim, a coisa acabou tomando um rumo que não planejávamos e talvez, com isso, uma situação não muito confortável tenha se criado. De qualquer maneira, tudo está dito, não há mais nada a esconder. E, assim como eu e o Júnior deixamos bem claras as nossas opiniões, nada mais justo que todos os envolvidos no e-mail façam o mesmo.

Portanto, você não falou besteira nenhuma. Expôs seu ponto de vista e eu o respeito. Mais: o entendo perfeitamente. Eu também já fui um cristão fervoroso e, como tal, não conseguia aceitar o fato de ser homossexual. Me via sujo, indigno, o último dos pecadores. Pedi a "cura", orei, implorei por perdão, chorei. Passei boa parte da minha juventude sentindo medo. Medo de Deus, medo dos meus desejos, medo das pessoas, medo do futuro.

Só que o medo te leva a extremos: ou você sucumbe e morre ou você reage. Eu reagi. Reagi porque Deus não me "curou". O mais perto que cheguei de uma mudança foi fingindo. E fingir, para mim, sempre equivaleu a morrer. Então, busquei sobreviver.

Deixei a igreja porque não via respostas ali. Pelo contrário, só via condenação. Como Deus poderia me condenar por algo que não escolhi ser, por algo que não escolhi desejar? Ninguém controla os próprios desejos, eles são involuntários; você gosta de maçã porque gosta, ninguém te mandou gostar, certo? E se alguém mandasse, você passaria a gostar assim, num clique?

Fui buscar respostas fora dos muros da igreja. Consultei psicólogos, alguns até cristãos; conheci pessoas como eu, li sobre o assunto, acompanhei pesquisas, estudei. E, com toda essa bagagem, concluí que sou assim por uma série de fatores, mas nenhum deles voluntário. Aprendi que não escolhi ser isso ou aquilo. Sou porque sou. E a melhor maneira de viver comigo mesmo é me aceitando. Se não, melhor morrer.

Sempre tive plena consciência de que tal conclusão vai contra tudo o que aprendi na igreja. São coisas realmente inconciliáveis. Portanto, precisei optar por um dos lados. E escolhi viver da maneira que achava mais correta, honesta e saudável: como eu mesmo.

E só sendo eu mesmo tive forças para me levantar e seguir em frente. Só me aceitando consegui construir uma vida, me mostrar de verdade para meus pais, irmãos e amigos, além de iniciar um relacionamento sério e de muito amor com o Leo, meu companheiro há cinco anos. Foi encarando e aceitando a verdade que consegui sobreviver, lutar, trabalhar, crescer, amadurecer.

Sei como a verdade pode parecer feia, distante e errada para você, porque já pensei exatamente como você pensa. Portanto, não espero, sinceramente, que a vida que eu levo hoje mude alguma convicção sua. Só decidi abrir a minha história porque a transparência, até agora, tem sido o melhor caminho.

Grande Rô, este é o seu primo. Bem diferente daquele moleque introvertido, magrelo, emburrado e esquisito que passava as férias na sua casa, mas, acredite, com o mesmo coração. E também com o mesmo carinho e o mesmo respeito nutridos por você, seus pais e irmãos.

Infelizmente, somos bem diferentes hoje, vivemos realidades muito distintas, embora compartilhando do mesmo sangue, como você bem colocou. Espero muito, muito mesmo, que, apesar de tudo, possamos conviver com as nossas diferenças. Porque nenhuma delas me faz querer ficar longe da minha família.

Se cuida, nego. E vamos nos falando.

Abração!

Márcio


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