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:: Documentário 'Fumando Espero' discute nas telas o calvário da fumaça



(Jornal da Tarde, 08/05/2009)


Um dia após a lei antifumo ser sancionada pelo governador, Adriana Dutra é cobaia de sua própria obra


Acredite: só um fumante mentecapto desconhece os malefícios do cigarro. Quem fuma tem plena consciência de que aquilo que lhe enche os pulmões é sinônimo de um perigo presente e um péssimo futuro para a saúde. Como, ainda assim, alguém mantém um cigarro na boca, a culpa carregada por muitos fumantes junto ao maço dentro do bolso, o desespero e os métodos para se livrar do vício, além da indústria e do marketing do tabaco, são alguns dos tópicos abordados por Adriana Dutra no documentário 'Fumando Espero', que estreia hoje na cidade - um dia após a sanção da polêmica lei antifumo pelo governador José Serra, que proíbe o paulista de acender seu ‘amiguinho’ em qualquer ambiente fechado, mesmo aqueles munidos de fumódromos.

Neste primeiro trabalho da atriz como diretora de longa-metragem, ela própria - também atormentada pela dependência da nicotina - experimenta artifícios antifumo frente às câmeras, procura médicos, terapia... “Fui cobaia da minha própria obra”, conta ao JT, por telefone.

E a diretora vai mais fundo: mergulha no mercado tabagista brasileiro, que consome 128 bilhões de cigarros por ano, até a sua raiz, os plantadores de tabaco, e entrevista famosos e anônimos que amam e odeiam o fumacê (leia mais abaixo). “É muito mais do que um filme sobre parar de fumar. É uma reflexão sobre o tabagismo.”

Ao repórter do JT - um recém-ex-fumante -, Adriana falou sobre a experiência e abriu o jogo: mesmo depois de fazer o filme, voltou a fumar.


Quantas vezes você já largou o cigarro?

Parei de fumar três vezes: a primeira foi no réveillon de 2006. Fiquei seis meses sem pegar no cigarro, mas recaí. Aí, na segunda tentativa, apelei para os adesivos. Durou nove meses. Recaí de novo. Parei outra vez em agosto de 2008. E hoje, mesmo depois do filme (ele foi finalizado em 2008), voltei a fumar...

Voltou?

Voltei... Mas, após muita luta, estou fumando só um cigarro por semana. E também figuro nas estatísticas da OMS (Organização Mundial da Saúde). Segundo a entidade, 60% dos fumantes não conseguem parar de vez, de uma hora para outra, precisam de três ou quatro tentativas...

Como voltou a fumar?

Eu estava no Canadá, para um festival de cinema local, e fui de carona com uma amiga que estava motorizada até uma cidade próxima à que abrigava o evento. Ela fumou durante todo o trajeto, acabei fumando junto. Por isso, defendo que ex-fumantes não podem dividir ambiente com fumantes. A gente acaba fumando junto, não tem jeito.

É uma tortura, não?

Um horror. Porque é mais difícil se livrar do cigarro do que de qualquer outra droga, como cocaína, maconha... É um negócio lícito e existem muitos ambientes propícios para se fumar, como um bar, bebendo cerveja... É muito mais problemático.

Falando nisso, em São Paulo (Adriana é carioca), o governador José Serra proibiu cigarro em qualquer lugar fechado, mesmo com fumódromos...

Acho a iniciativa maravilhosa. Quanto mais dificuldade você colocar para o fumante, mais você o ajudará. E ainda existe muita falta de respeito com quem não fuma. Além de inalar três vezes mais nicotina, o fumante passivo é também um fumante em potencial. Se ele tiver predisposição, começará a fumar também.

Esta é uma das conclusões que o seu filme mostra, não? De que quem fuma tem predisposição?

Sim, a maioria dos fumantes é predisposta geneticamente a se viciar. Sessenta por cento deles são quimicamente dependentes.

Mesmo assim, hoje, quem fuma sente muita culpa...

Claro, há muita culpa, muito mais agora, com a conscientização geral sobre os males do cigarro, as substâncias perigosas que o compõem. Fumante sabe que cigarro faz mal, mas a dependência é maior do que a consciência. Também existem aquelas pessoas que dizem: “Paro quando quiser, paro no réveillon, na semana que vem...” É mentira. O cigarro provoca três vícios: a dependência física, a psicológica e a comportamental. A mais difícil de se combater é a comportamental. Quando você menos percebe, está fumando. É preciso ficar muito atento às atitudes que te levam ao cigarro, para não cair de novo nelas. Por exemplo, quando você fala ao telefone, espera por alguém, está à toa...

Por quantos tratamentos antitabaco você já passou?

Fiz vários, com médicos, terapia, chicletes, adesivos... Fiz até um filme! O longa, de fato, é o meu remédio. É o meu tratamento, tenho ele como ferramenta para parar de vez de fumar.

Qual é o principal objetivo do documentário?

Não estou aqui para levantar bandeiras, meu objetivo é ser a mais honesta possível, mostrar a realidade do fumante, que a coisa é pesada mesmo. Mas de uma maneira leve, até com humor. E há no filme depoimentos de pessoas que defendem o cigarro também, porque não quis fazer um longa panfletário. É um debate, uns contra, uns a favor. Assim, ficou mais dinâmico.


Por Márcio Oyama


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