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:: Falta homem na passarela



(Jornal da Tarde, 25/06/2009)


Exemplo da ‘tendência’ apareceu na SPFW. Dos 40 desfiles, apenas 4 foram masculinos


Paris dá início hoje à sua semana de moda masculina, depois de Milão apresentar as coleções que grandes grifes desenharam para os homens. Hein? Fashion weeks masculinas? Isso existe? Pois é. Se a indústria de roupas femininas no Brasil ainda cresce, a da indumentária ‘testosterônica’ engatinha. Enquanto a Europa dedica eventos exclusivos ao guarda-roupa deles, a São Paulo Fashion Week quase ignora os ‘machos’: na edição Verão 2010, que terminou segunda-feira, apenas 4 dos 40 desfiles focaram só os homens - V.Rom, Mario Queiroz, Alexandre Herchcovitch e Reserva (foto).

Por que, afinal, o cabideiro masculino ganha tão pouca atenção no País? Os brasileiros não merecem ou não querem tal atenção? As opiniões se dividem: para especialistas, falta mercado; para estilistas, falta visão dos empresários.

Paulo Borges, organizador da SPFW (e agora também do Fashion Rio), carimba: o Brasil está longe de ostentar uma semana como a que começa hoje em Paris. “A questão é o tamanho de mercado. Ainda não existe a necessidade de uma semana de moda masculina no País.” Opinião compartilhada pela consultora de moda Gloria Kalil, autora do manual de estilo ‘Chic Homem’. “Não é ‘achismo’. Só o mercado determina a validade de um evento assim. Se houvesse demanda, com certeza teríamos o nosso.”

O homem brasileiro, de fato, compra pouco, confirma o pesquisador de moda masculina Lula Rodrigues. “É um consumidor muito conservador, fechado a novidades, ao contrário dos europeus, que têm cultura de moda, são fashionistas. Por aqui, uma novidade simples como, por exemplo, o terno de dois botões, demora quase quatro anos para pegar.”

Igor de Barros, estilista da V.Rom, concorda que a avidez por roupas fica com as mulheres. “As brasileiras são alvoroçadas por novidades, com ou sem crise. Já os homens gastam menos porque optam por produtos que duram mais.” Igor, entretanto, não vê nisso escassez de demanda. “O que falta são empresários que enxerguem o potencial do mercado e apostem nele, investindo em produção e marketing.” Um exemplo de caso bem-sucedido, conta, é o da Cavalera (Igor também integra a equipe de criação da marca): “A linha masculina sai muito mais do que a feminina”.

Roni Meisler, da Reserva, endossa: “Há lacunas entre as grifes, não entre os consumidores. A Reserva nasceu justamente para preencher uma lacuna. A demanda é bem maior do que a oferta. Eu estou vendendo. Estou feliz.”

Um consenso entre criadores e especialistas aponta que há luz no fim do túnel. “A galera de 20 anos vem crescendo com cultura de moda, consumindo mais. Tenho certeza de que a moda masculina ainda vai estourar”, diz Lula. “É um trabalho a longo prazo. E vejo que o mercado está aumentando”, completa Igor.


Por Márcio Oyama


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