Márcio Oyama :: jornalista e webdesigner

:: Márcio Oyama > Profissional > Reportagens


<<




:: Gloria Kalil: ‘A moda e a etiqueta podem excluir. Eu sou pela inclusão’



(Jornal da Tarde, 05/11/2007)


Lançando o seu quarto livro, a especialista em boas maneiras diz que faz questão de ensinar as regras do jogo para quem paga aluguel e almoça no quilo. Aos famosos, um puxão de orelha: ‘Falta compostura’


Gente cheia da grana, com mesas de jantar quilométricas e closets climatizados? Não. Gloria Kalil quer falar com você, inquilino, usuário do metrô, cliente daquele quilo baratinho. “Eu sou absolutamente pela moda e pela etiqueta de inclusão”, diz a mestra nos dois assuntos, que acaba de lançar o seu quarto livro, ‘Alô, Chics!’ (Ediouro, 221 págs., R$ 39), uma coletânea de textos nascidos das dúvidas enviadas à autora por internautas do site ‘Chic’, ouvintes da Rádio Eldorado e telespectadores do quadro ‘Etiqueta Urbana’, do ‘Fantástico’.

Credenciais para ensinar boas maneiras na tevê e na internet (ela precisou deixar a rádio por excesso de trabalho) não lhe faltam: jornalista, ex-proprietária da grife Fiorucci no Brasil e consultora de moda desde os anos 80, Gloria já vendeu 300 mil cópias dos três livros anteriores - ‘Chic’ (1996), ‘Chic Homem’ (1998), ambos pela Editora Senac, e ‘Chic(quérrimo)’ (2004), pela Editora Conex. Nesta entrevista, ela explica por que não tem interesse nos insiders - mira mesmo quem nunca pisou na Daslu -, garante que conhece o Bom Retiro como poucos, diz que a informalidade do brasileiro pode descambar para a ‘folga’ e ainda dá um puxão de orelha nas celebridades. “Precisam de compostura.”


Qual é o seu público hoje?

É muito variado e surpreendente. Quando o ‘Fantástico’ decidiu deixar o quadro (‘Etiqueta Urbana’) fixo no programa, fez grupos de discussão com telespectadores de vários perfis, como donas de casa, advogados. E pegaram também jovens de periferia, grupo que foi absolutamente unânime em dizer que queria o quadro. Eles sabem que tem um jogo rolando, mas não conhecem as regras. Querem participar, todo mundo quer participar.


Como surgiu essa empatia com as classes média e baixa?

Eu faço questão de trabalhar com elas. Tenho muito interesse em ser útil nessa área. Não faço nem moda nem esta conversa para insiders (iniciados), mas para quem não conhece o assunto. O que me interessa na moda é o quanto ela faz uma pessoa se sentir mais segura pela maneira como está vestida, pela maneira com que se comporta, como ela facilita a nossa vida. A moda e a etiqueta podem excluir as pessoas. Eu sou absolutamente pela moda e pela etiqueta de inclusão.


As pessoas te pedem dicas na rua?

Pedem. Principalmente se estou em alguma loja de roupas.


Você não se incomoda?

Não, é tudo muito suave, muito simpático. Não sou celebridade, que todo mundo sai correndo atrás.


Falando em celebridades, há um capítulo especial para elas no seu novo livro…

Tive também no ‘Chic(quérrimo)’. Venho observando as celebridades como uma categoria à parte de gente. Defendo que elas tenham responsabilidade, porque são olhadas como exemplos, o que é um erro. As pessoas saem correndo atrás de qualquer sujeito sob um holofote. Digo: ‘Calma, gente, pode ser um assassino’. E às vezes até é (risos). O fato de estar rodeada de fotógrafos não significa que a celebridade seja celebrável. Assim, dou dicas, defendo compostura. Não é para passar na frente dos outros na fila, atrasar aos compromissos, esperar que as lojas não cobrem…


As pessoas ficam tensas quando te encontram, preocupadas se estão agindo da maneira correta?

Nem tanto na área da etiqueta, mas muito mais na área da moda. Faço palestras pelo Brasil inteiro e tenho a impressão de que as pessoas ficam bem preocupadas com a maneira como estarão vestidas para me encontrar. Elas falam: ‘Fiquei horas no espelho escolhendo uma roupa’. Eu entendo, porque, de fato, a maneira como uma pessoa se veste é uma superbandeira, não de quem ela é, mas de que jeito ela quer ser vista naquele dia. Ninguém, de manhã, enfia a mão no guarda-roupa e pega a primeira blusa. Ela faz um cálculo inconsciente de onde estará de manhã, no almoço, à noite… E pega a roupa adequada à maneira como quer ser avaliada e tratada em todas essas situações. Quando o acontecimento inclui uma visita de uma pessoa de moda, o cálculo dobra.


Você diz que ninguém nasce sabendo, tudo se aprende. Em termos de etiqueta, o brasileiro ainda tem muito o que aprender?

Não é só o brasileiro, não. Acho que o mundo inteiro está diante da situação de reavaliar a sua maneira de se comportar. Eu li certa vez que o governo alemão, reconhecendo que o país tem o povo mais mal-educado da Europa, ia tomar providências, incluindo até aulas de etiqueta nas escolas.


Em que pontos o brasileiro erra mais?

O povo brasileiro é muito informal. O que é muito simpático, mas, às vezes, escorrega um pouco para a folga (risos). De qualquer maneira, há uma espontaneidade, uma disponibilidade para o outro, que muitos poucos povos têm.


O brasileiro não usa pouco ‘por favor’ e ‘obrigado’?

De fato, os povos mais formais usam isso abundantemente e nós, talvez, menos. Mas, muitas vezes, vejo numa abordagem sem o ‘por favor’ um tom de delicadeza. A pessoa não falou o ‘por favor’, mas o tom é amistoso, suave. Acho que compensa a falta.


Você também comete gafes?

Atire a primeira pedra quem não comete.


Qual foi a última?

Na minha noite de autógrafos (no dia 30 de outubro, na Livraria Cultura), vendi mais de 300 livros. Imagine se não troquei nome, esqueci nome, escrevi nome errado…


Como se safar de uma gafe?

Seja qual for a fórmula que você encontre - porque não há -, tem de ser curta (risos). A pior coisa é esticar o assunto, ficar dando explicação, rodeando…


A sinceridade é melhor do que a dissimulação?

Depende. Eu não tenho nada contra pequenas mentiras brancas. Acho que há mentiras caridosas que devem ser bem usadas. Por exemplo, se alguém chega e diz: ‘Tenho um casamento, você acha que tal roupa fica bem?’. Eu posso dizer: ‘Acho que não fica’. Agora, se a pessoa entra pronta na minha frente e fala: ‘Estou indo para a festa, que tal?’. Respondo no ato: ‘Está linda’. Ué? Vou dizer que não está bem e acabar com a noite dela?


Tendo feito carreira na moda, como você enveredou para a etiqueta?

Há uma relação muito nítida para mim. Percebo que, atrás de uma pergunta de moda, está embutida uma pergunta de etiqueta. Quando uma mulher diz que vai ser madrinha de um casamento de manhã, ela quer saber que tipo de festa é essa, se de manhã é a mesma coisa que de noite, se tem de ir de longo ou de curto. Quando você esclarece o que é o acontecimento, a roupa fica mais fácil de ser resolvida. Uma coisa vem com a outra.


Aliás, os casamentos figuram entre as dúvidas mais freqüentes?

Cerca de 80% das perguntas que recebo são de casamento. Hoje, há muita variação da cerimônia: casamento na praia, no sítio, de manhã. Aliás, casamento de manhã enlouquece convidados, padrinhos e madrinhas. Os homens não sabem se precisam ir de terno, se têm de usar gravata… As madrinhas perguntam se devem ir de longo, se pode ser curto. De manhã, não é hora de se usar longo. Longo é para casamentos à noite - e mesmo assim se todos combinarem de ir de longo.


Você vai ao Bom Retiro?

Eu conheço muito bem o bairro, porque a fábrica da Fiorucci ficava lá. Acompanhei muito as mudanças do Bom Retiro. Hoje, ele é sensacional em termos de informação de moda. Andando pela região, você sabe exatamente quais são as cores da moda, as formas da moda…


E as tendências para o verão?

Olha, tendência é o que menos me interessa na moda. É a coisa que mais muda, mais passageira. A moda é tão interessante como estudo, observação de identidade… Tendência você vai na banca de jornal e vê, daqui a 15 minutos será outra. O que você tem de fazer é ir à frente do espelho, se olhar de frente e de costas e detectar o que te vai bem, o que combina com o seu estilo, o que melhor te representa. É o único jeito de escolher uma roupa certa.


Por Márcio Oyama


<<