Márcio Oyama :: jornalista e webdesigner

:: Márcio Oyama > Profissional > Reportagens


<<




:: Moda com status de arte



(Estadão, 09/09/2007)


Afastado das fashion weeks desde 2004, Jum Nakao se mantém entre os maiores estilistas do País


Uma realeza de papel destruída ao fim de um desfile triunfal. Jum Nakao, de 40 anos, dizia adeus ao mercado fashion. “Além da pouca viabilidade empresarial, enxergava um futuro vazio, sem conteúdo”, explica o estilista. “Estava preocupado com a nova geração.” Era 2004. Jum pisava pela última vez na passarela da São Paulo Fashion Week, o maior evento de moda da América Latina.

Os etéreos e magistrais vestidos de papel confeccionados pelo designer emolduravam princesas-bonecas. As saias, as golas, as mangas e os drapeados eram instalações, obras de arte genuínas. Toda a coleção havia consumido 700 horas de trabalho intenso.

A plateia ovacionava a apresentação. Mas as palmas deram lugar ao silêncio, subitamente, quando as modelos começaram a rasgar os trajes. Despiram-se sem dó, destruindo cada tira, cada prega, deixando à mostra apenas o colante preto que vestiam por baixo do papel. Abandonaram a passarela sobre um tapete de recortes.

O público chorava. Muita gente se jogou no chão para garantir uma lembrança do desfile derradeiro. “Peguei vários papeizinhos”, lembra a estilista Erika Ikezili, na época estudante de moda. Ela não sabia, mas aquela era uma dura lição do mestre. Ao fazer uma coleção inteira para ser rasgada logo depois da exibição, Jum pretendia mostrar que, se existe uma ideia, um conceito, o trabalho permanece, independentemente da forma.

E o estilista prova a tese com a própria história. Três anos depois de ter abandonado as fashion weeks, ele continua no primeiro time dos criadores nacionais. A saída do mercado não abalou o prestígio conquistado em 23 anos de carreira, iniciada nos cursos da antiga Coordenação Industrial Têxtil (CIT). Hoje, o designer dá palestras no exterior e aulas de pós-graduação no Instituto Brasil de Arte e Moda - formado por Faap, Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit) e Masp -, além de coordenar coleções e desfiles pelo País.

“Quando saí do CIT, ainda sentia falta de formação. Trabalhei com um alfaiate, descobrindo a alquimia da construção da roupa. Também fiz curso de joalheria”, conta Jum. O arremate acadêmico veio com o diploma de Artes Plásticas, pela Faap.

Tanto preparo produziu frutos valiosos. Em 1996, o nikkei estreou no Phytoervas Fashion, berço da SPFW, e foi considerado a grande revelação do evento, com uma coleção masculina que brincava com ícones machistas. Acabou sendo convidado para assumir o estilo da Zoomp, onde ficou até 2002, quando partiu em carreira solo.

Em 2004, logo após a ruptura com o mercado, Jum assinou um contrato inédito com a Nike. Pela primeira vez na história da gigante esportiva, uma linha premium saía das fábricas assinada: a Jum Nakao for Nike foi vendida em lojas de todo o mundo.

Um ano depois, o paulistano nascido no Jabaquara, Zona Sul, exibiu no Museu de Moda de Paris as peças do seu último desfile - batizado de A Costura do Invisível, que ainda rendeu um livro-DVD - junto a criações dos maiores estilistas do planeta, como Christian Dior, Chanel, John Galliano e Jean Paul Gaultier.

Em 2006, uma homenagem inesperada - e simbólica: ao fim das comemorações dos dez anos da SPFW, a realeza de papel criada (e destruída) por Jum Nakao recebeu a coroa de desfile da década. Privilégio dos imortais.


Por Márcio Oyama


<<