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:: O novo caminho do guerreiro



(Estadão, 06/05/2008)


Bushido, código do samurai, veio com os imigrantes e sobrevive, modernizado, entre os descendentes


Sob a discreta e impecável vestimenta cortada à moda ocidental, pesadas armaduras de metal laqueado. Escondidos nos chapéus de coco ou em delicados modelos de tecido, capacetes assustadores, ornamentados com chifres. Nas malas de vime, junto a travesseiros de bambu, longas e afiadas espadas. Há 100 anos, o navio Kasato Maru atracava no Porto de Santos trazendo ao País não apenas 781 japoneses “distintos, asseados e ordeiros”, como descrevia a imprensa da época. Trazia também um exército de guerreiros.

As comemorações do centenário da imigração nipônica em terras brasileiras não se restringem ao desembarque dos primeiros estrangeiros de olhos puxados no litoral paulista. Abrangem a chegada de um bem muito maior, um legado milenar cravado na alma de cada um dos imigrantes aqui ingressos, disseminado entre seus descendentes e perpetuado até hoje. Com os japoneses, pisava no País, em 1908, o espírito dos samurais.

É no código de honra dos guerreiros nipônicos que está a raiz da disciplina, da coragem e da sede por superação que carimbam a história da comunidade nipo-brasileira. Influenciado pelo budismo, pelo xintoísmo e pelo confucionismo, o bushido, ou ‘caminho do guerreiro’, une os preceitos da conduta samurai. Permaneceu não-escrito até 1710, quando Tsunemoto Yamamoto - um vassalo proibido de morrer com o seu suserano, o senhor feudal Mi-tsushige Nabeshima, durante a decadência do xogunato no Japão (leia abaixo) - tomou para si a responsabilidade de colocar as regras no papel, escrevendo a Bíblia da classe guerreira japonesa, o Hagakure (‘Folhas Ocultas’).

No livro, o comportamento de um seguidor da espada é traçado em minúcias, com ensinamentos que partem de atos triviais, como a maneira certa de se bocejar, e chegam aos pilares do espírito samurai - coragem, desapego à vida (influência do budismo), lealdade, patriotismo, reverência aos antepassados (xintoísmo), justiça, benevolência, honestidade… Regras hoje inviáveis também estão listadas: a morte servindo de penitência - aos inimigos e a si mesmo.

“É de mau gosto bocejar diante dos outros. (…) Você pode tapar a boca com a mão para que ninguém perceba o que está acontecendo”, ensina Yamamoto-sensei, denunciando a origem do comportamento recatado mostrado pelos primeiros nipônicos em Santos, que surpreendeu o Brasil e marcou as gerações seguintes.

“Se tivéssemos de dizer em poucas palavras o que é ser um samurai, a base de tudo seria a devoção total do corpo e da alma ao nosso mestre. E se nos perguntassem o que fazer além disso, a resposta seria nos prepararmos internamente com inteligência, humanidade e coragem (virtudes do confucionismo)”, continua o Hagakure.

Mesmo após o fim da classe samurai no Japão, em 1868, o código guerreiro sobreviveu, chegando ao Brasil 40 anos depois.

“Muitos imigrantes que vieram ao País em 1908 eram filhos de japoneses que viveram na época dos samurais e até filhos de guerreiros. Carregavam o bushido porque, naquela época, a única forma de se educar os filhos era o padrão samurai”, explica o sensei Jorge Kishikawa, 7.º Dan de Kendô no Japão e representante da 10ª geração de discípulos de Miyamoto Musashi, o mais célebre dos guerreiros japoneses (abaixo).

“O Brasil logo percebeu que eram imigrantes diferentes. No Porto de Santos, estavam vestidos com distinção, mostrando uma das características da herança samurai, que é a formalidade, a apresentação impecável”, ressalta Kishikawa. “Com o tempo, fizeram a fama de honestos e trabalhadores. Outra vez, em cima do bushido.”

A presença de um mestre das espadas em solo brasileiro prova a vida longa do código guerreiro nos trópicos e a sua independência dos campos de batalha. “Hoje, o treinamento das artes militares se volta ao aperfeiçoamento do caráter do homem”, diz Kishikawa. O mestre procura moldar o espírito brasileiro desde 1993, quando fundou o Instituto Niten, onde ensina o caminho da espada em 40 unidades espalhadas pelo País.

O bushido do século 21, claro, não é literal. “Passo os katas (preceitos) aos discípulos de forma adaptada, não vou ordenar que façam o harakiri. Mas todos aprendem a forma de se portar, falar, valorizar a honra, a lealdade.” Para evitar que seus coordenadores “saiam decapitando alunos”, como o próprio sensei brinca, Kishikawa lançou o Shin-hagakure (‘Novo Hagakure’), obra que traz o espírito samurai modernizado. “O livro tem sido referência também para o mundo corporativo. O Ocidente busca o bushido.”


Lealdade e busca da perfeição

Os samurais foram extintos em 1868, mas seu legado está no Hagakure

Foram 633 anos de domínio sobre o Japão. Baseados no bushido, que pregava a lealdade imparcial aos provedores da terra que habitavam e do alimento que comiam, os samurais começaram a desenhar, em 1185, com o próprio sangue, as fronteiras de um país retalhado por dezenas de feudos, defendendo na espada as propriedades de seus daimyo (senhores feudais).

Até 1600, as batalhas entre os donos das terras pelo controle total do arquipélago eram ininterruptas. Nas linhas de frente, os samurais viviam para a guerra. Criavam e aperfeiçoavam técnicas de lutas com espadas e arco-e-flecha, além de combates corporais. Matar e morrer faziam parte de suas obrigações. Se durante uma batalha não conseguissem defender seu daimyo e o perdessem, eram instruídos pelo bushido a praticar o harakiri (suicídio por meio da perfuração da própria barriga).

O poderio militar da classe samurai começou a ruir após a Batalha de Sekigahara, em 20 de outubro de 1600, quando Tokugawa Ieyasu venceu o exército do leste, liderado por Ichida Mitsunari, e tomou o poder no Japão. O novo xogum deu fim ao período feudal no arquipélago e centralizou o poder.

Era o início de um período de paz para o povo e de ruína para os samurais. “Os guerreiros, de militares, passaram a ocupar cargos administrativos ou viraram ronins (‘samurais errantes’)”, conta o sensei Jorge Kishikawa, do Instituto Niten. Aliados de Tokugawa ascenderam e enriqueceram; os combatentes do Exército do Leste perderam seus donos e, logo, os empregos.

Um desses ronins do pós-guerra era Miyamoto Musashi, sobrevivente de Sekigahara que, mesmo sem um senhor a quem servir, viveu o bushido até o fim da vida, buscando obstinadamente a perfeição como samurai. Venceu mais de 30 duelos e criou o niten ichi-ryu, estilo de luta oriunda do kenjutsu (a base do kendô), praticado com duas espadas. Ainda hoje é considerado o maior guerreiro japonês.

“Musashi-sensei reuniu todas as qualidades do bushido. Tinha as virtudes da coragem e da honra e sempre buscou a verdade, a perfeição. Enquanto todos queriam se estabilizar, se contentavam em comer e se divertir, ele não se acomodou. Procurou o seu caminho”, diz Kishikawa, o único brasileiro condecorado no Japão como discípulo direto do mestre do niten ichi-ryu.

Tsunemoto Yamamoto, vassalo do clã Nabeshima, foi outro samurai que lutou contra a decadência do código de conduta da classe guerreira. Com a morte de Mitsuge Nabeshima, em 1700, não pôde cometer o harakiri, como sinal de lealdade a seu suserano, por ordem do governo Tokugawa, que havia abolido a prática no Japão. Raspou a cabeça e virou monge, passando a redigir os preceitos do bushido, até então um código não-escrito. Nascia, em 1710, o Hagakure, obra que eternizou o espírito do guerreiro japonês.

Em 1868, os samurais foram oficialmente extintos pelo imperador Meiji (1868-1912). Mas seu espírito sobrevive.


Por Márcio Oyama


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