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:: O voo



(23/01/2006)


Homenagem aos ex-colegas de jornalismo Angélica, Nathália, Glauco, Giba, Marc e Alexandre


Angeleide entrou. Tremia. Mas os passos eram firmes. Mesmo balançando os quadris, conseguia deixar os ombros parados, assim como os braços, imóveis ao longo do tronco. Como foi difícil aprender a andar assim. Mas, naquele dia, sob os holofotes, ela esqueceu a dor, os gritos do professor - que usava um salto agulha pink, de veludo, para lecionar -, a humilhação de ter o nome trocado no composite - Angeleide, nunca - e o deboche das colegas experientes. Era a sua estreia na passarela.

Ao parar diante dos flashes, Nathy, como passou a ser chamada na agência, se lembrou de tudo o que deixara para trás e de como fora alto o preço daquele lugar diante das câmeras. Por um instante, tão rápido quanto um clique, pensou ter visto entre os fotógrafos o marido, Glaucíades, detido havia seis anos por furto, assalto, estelionato e tráfico. “Prefiro te ver morta a te pegar mostrando as vergonhas pros outros”, repetia o detento em todas as visitas da mulher ao presídio.

Por medo, respeito e até compaixão, Angeleide obedecia às ordens de Glaucíades sem protestar. E, assim, o convite do olheiro da agência para fazer um book ficou enterrado embaixo de uma pilha de conformismo por dois anos. Até que Gibaldo, o tal olheiro, reapareceu.

No reencontro, os mesmos - e intermináveis - elogios à beleza da jovem não apenas convenceram Angeleide a virar Nathy, como também transformaram aquela pacata e resignada dona de casa em uma adúltera das mais libertinas. Com Gibaldo, Nathy descobriu toda a permissividade do sexo pagão - e do dinheiro. Logo abandonou o casebre que dividia com o marido carrasco e a sogra, na periferia de Carapicuíba, e se mudou para o flat do olheiro. Fez um book respeitável, bancado por Gibaldo, e começou as aulas de passarela. Meses depois, passou no casting do primeiro desfile - no maior evento de moda do país.

Teria sido um conto de fadas não fosse a fúria de Glaucíades. Avisado pela mãe, o detento jurou vingança à mulher. Seus comparsas passaram a ameaçar os pais e os oito irmãos de Nathy, que tiveram de se mudar às pressas para o Espírito Santo. Zoyão, o vira-lata que a bela jovem salvou das ruas, amanheceu morto três dias depois da fuga de sua dona. Gibaldo foi obrigado a pedir proteção policial para Nathy. Depois, contratou dois seguranças particulares para acompanhar a modelo nos castings.

Na passarela, parada diante dos fotógrafos, a nova aspirante a top de repente sentiu um frio na espinha. Seus guarda-costas não estavam lá para protegê-la. No retorno aos camarins, o vulto de Glaucíades voltou à sua mente. Só se apagou quando o produtor do desfile bradou, na ponta dos pés, um estridente “pro cabide, já!!!!”.

Nova troca de roupas, segunda aparição, entrada coletiva das modelos. Fechando a noite, à frente da fila, entre dois consagrados estilistas - Alle & Marks -, Nathy teve a certeza de que nada acabaria com aquele sonho. Nada a impediria de voar. E sentiu que seus pés saíam do chão. Flutuava. Subiu tão alto que pôde vislumbrar a passarela por inteiro. De cima, viu que a fila de modelos havia se transformado em um amontoado de cadáveres, lindos e esbeltos, embebido em uma extensa lâmina de sangue. Já não havia mais ninguém na plateia. O silêncio era gelado. Identificou o próprio corpo, caído entre os de Alle e Marks. No coração, três tiros. Ao seu lado, Glaucíades, imundo de terra e com a arma na mão. Chorava.


Por Márcio Oyama


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