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:: Olhe para trás



(02/07/2015)


Cinco dias após a histórica legalização do casamento gay em todo o território norte-americano, similar à já conquistada no Brasil via STF, assisti ao filme 'The Normal Heart', um drama essencial sobre o início da epidemia de aids nos Estados Unidos e o inacreditável descaso dispensado pelo governo local à comunidade de homossexuais infectados.

Emoções distintas, que me levaram a pensar em como muitas conquistas celebradas hoje dependeram da morte alheia - e como nós, condicionados a olhar apenas para a frente, nos esquecemos dela. Sim, precisamos parar um minuto, olhar para trás e reverenciar o caminho percorrido, porque ele, na verdade, é um mar de cruzes fincadas no chão.

Quanto sangue a violência gerada pela ignorância e pela intolerância (incluindo as institucionalizadas) derramou até que os gays tivessem, enfim, o direito de subir ao altar, aqui, nos Estados Unidos e em tantos outros países? Quantas travestis foram torturadas e esfoladas até que uma transexual surgisse na capa da 'Time' e outra no discurso de Barack Obama? Quanto desespero e quantos funerais de choro silenciado a negligência e o preconceito produziram até que a aids fosse oficialmente reconhecida e virasse alvo de políticas públicas em todo o mundo?

Claro, ainda há muito a avançar. Homossexuais continuam morrendo (espancados ou se enforcando), travestis são apedrejadas diariamente e o HIV não parou de matar. Mas olhar para trás e celebrar as conquistas já alcançadas não significa interromper a caminhada ou se acomodar. Sobretudo quando tais conquistas tiveram raízes em tantos livros brilhantes não escritos, tantas vozes doces caladas, tantos abraços interrompidos, tantas luzes apagadas. Nós devemos o que ganhamos a incontáveis vidas perdidas. A elas dediquemos os avanços e, sobretudo, a celebração.


Por Márcio Oyama


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