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:: Palavras



(06/02/2006)


Pulei a janela e voei. Voei! Mas não olhei para baixo. Não me preocupei com a visão aérea da minha vida. Planando, tentava encontrar palavras no ar. Aquelas perdidas. Aquelas esquecidas.

Mas o voo foi em vão. Descobri que tudo o que sai da mente pela boca some, evapora, como as águas dos rios. Talvez, esfumaçadas, as palavras sejam retidas por uma barreira gelada na atmosfera e voltem à terra como chuva. E, no chão, reguem, alimentem, frutifiquem.

Voltei como um asteróide e perfurei o solo. Sob raízes e pedras, também não havia nada. Nem uma sílaba. Estariam elas dentro de frutos? Amadurecidas, passadas, podres?

Devorei tudo o que nasce da terra. Não encontrei letras, mas a morte. Frutos venenosos. As palavras podem matar?

Foi em outra escala, num silêncio infinito, que as encontrei. Mas não as compreendia mais. Já não faziam sentido. Vi, enfim, que as perdi - e para sempre. Perdi as palavras por não tê-las gravadas na alma.


Por Márcio Oyama


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