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:: Qual é a sua versão 'director's cut'?



(25/11/2015)


Você nasce com uma cara e um corpo que, apenas alguns meses depois, são outros. Parecem até de outra criança. E esta é apenas a primeira de muitas metamorfoses que se sucedem na sua vida. Até morrer, você simplesmente não para de mudar.

Toda a fofurice da infância é espichada e distorcida por uma avalanche de hormônios quando chega a adolescência. Como não virar o rosto para aquela figura cabeçuda e desarticulada que insiste em surgir no espelho? Pior: como aguentar tanto drama, tanta insegurança? O fofo, de repente, vira um 'weirdo'.

Aí vem a juventude e a vida parece, enfim, começar a entrar nos eixos. O espelho é o mesmo, mas o conjunto cabeça-corpo-membros já se desenha mais harmônico nele. As ideias não soam tão perturbadas e o seu vocabulário, antes tomado por grunhidos, passa a incorporar palavras como razão, prioridade, futuro... Entretanto, uma, bem chata, custa a aparecer: maturidade.

Quando a vida adulta grita, até traz a bendita, só que, na garupa, vêm novos abalos: os cabelos caem, a barriga cresce, as costas doem. Tudo se arredonda. E um universo de termos até então distantes gruda na sua vida: lentes multifocais, cardiorrespiratório, prestação, boleto...

Viver é isso, afinal? Crises existenciais se avizinham no horizonte, mas logo desaparecem, esmagadas pelos problemas de verdade: reumatismo, artrose, colesterol... A velhice dá as caras, cansadas e enrugadas, e fica, de novo, difícil encarar o espelho. São realmente meus esses fios brancos, essa pele, esses ossos? Você definha. Você se perde. Aos poucos, se esvazia. Aos poucos, se despede.

Colocada em perspectiva, a existência humana me intriga - e, às vezes, me apavora. Se sou uma mudança constante, nunca serei completo, definitivo? Em algum ponto desta vida mutante existiu ou existirá um eu totalmente formado, com todos os itens de fábrica, peças, porcas e parafusos? Alguém conheceu ou conhecerá o Márcio inteiro, aquele que ele realmente foi feito para ser?

Pior: e se eu, aos 40 anos, já fui completo lááááá atrás - e nem notei?

Talvez o melhor seja acreditar que a resposta não mora na biologia, mas nas nossas escolhas. Pense: qual das muitas fases (e faces) surgidas ao longo da sua existência te define com mais precisão? Quando você se sentiu inteiro, 'full version', 'director's cut'? Quando você se sentiu plenamente você?

Cristalize então a preciosa lembrança e guarde-a com carinho. Registre-a de alguma forma. Porque o amanhã trará outras mudanças. Amanhã, haverá um novo você.


Por Márcio Oyama


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