Márcio Oyama :: jornalista e webdesigner

:: Márcio Oyama > Profissional > Reportagens


<<




:: Sapateiros superstars



(ELLE, junho de 2010)


Seus sapatos despertam paixões fulminantes e transcendem o status de fetiche - são verdadeiras obras de arte (e custam como tal!). Conheça os shoe designers mais famosos do planeta


Red sole: Christian Louboutin

Aos 15 anos, o parisiense nascido no bairro operário 12emme Arrondisement já criava e vendia sapatos para as dançarinas dos cabarés onde fervia a noite subversiva de Paris. Mas Christian Louboutin também era frequentador assíduo de salas de música e teatro, além de museus. Foi mixando culturas tão díspares que passou a desenhar calçados para grifes gigantescas, como Christian Dior, Chanel e Yves Saint-Laurent, nos anos 1980. Quando a década chegou ao fim, deu um tempo na carreira para se dedicar ao paisagismo e só retomou em 1992, abrindo a boutique Christian Louboutin dentro da elegante Galeria Vero-Dodat. Quatro meses depois, uma jornalista americana da ‘W Magazine’ que procurava novos endereços trend em Paris ouviu uma animada conversa entre duas mulheres sobre Louboutin. Uma delas era a princesa Caroline de Mônaco. Reportagem publicada, o voo do sapateiro francês rumo ao estrelato começava. Suas criações ora sexy, ora clássicas, ora exuberantes, ora despretensiosas se uniram em um símbolo: a sola vermelha. “Eu estava pensando em pop art e queria algo que tivesse uma única cor. Também queria que as mulheres deixassem uma imagem quando vistas indo embora.”

Hoje, a grife Christian Louboutin está presente em 46 países, o Brasil inclusive (no Shopping Iguatemi, em São Paulo), e calça as maiores estrelas do mundo. Segundo o Luxury Institute, a marca é a mais desejada do planeta pelo terceiro ano consecutivo. Seu idealizador também colabora com outros designers, como Azzedine Alaïa e Diane von Furstenberg. Em 2002, Louboutin criou um sapato para a última coleção assinada por Yves Saint Laurent (morto em 2008). No ano passado, esteve no centro de um burburinho quando começaram as gravações de ‘Sex and the City 2′: ele substituiria Manolo Blahnik nos pés da personagem Carrie Bradshaw. Ao jornal ‘The Guardian’, Louboutin não se mostrou nada empolgado. “Eu acho que isso é uma coisa boa porque as pessoas me dizem que é. Eu não tenho TV…”

Raio-x

- Características: sapatos exuberantes de acabamento impecável.
- O que só ele tem: a icônica sola vermelha.
- Quem usa: Madonna, Nicole Kidman, Kate Winslet, Kirsten Dunst, Gwyneth Paltrow, Cate Blanchett, Sarah Jessica Parker e até Suri Cruise.
- O melhor: os saltos vertiginosos e as estampas, garimpadas especialmente no Oriente. Destaque também para peças com joias incrustradas.
- Preços: de R$ 2 mil a R$ 12 mil.


Drama king: Manolo Blahnik

Se não fosse por Diana Vreeland, editora-chefe da ‘Harper’s Bazaar’ no anos 1960 e da ‘Vogue América’ nos 1970, possivelmente Manolo Blahnik não estaria hoje entre os sapateiros mais influentes e cobiçados do mundo. Nascido nas Ilhas Canárias, em 1942, filho de mãe espanhola e pai tcheco, ele estudou literatura e arquitetura na Universidade de Genebra, Suíça, antes de se mudar para Paris, em 1965, para trabalhar como cenógrafo. Cinco anos depois, fez uma viagem a Nova York e conheceu Diana, que não se empolgou com os cenários teatrais desenhados por Manolo, mas sim com os sapatos que ele usava. Aconselhado pela sumidade fashion a se lançar como designer de calçados, Blahnik passou a visitar fábricas, entrevistando dos operadores das máquinas aos seus técnicos. Logo adquiriu vasto conhecimento de produção e começou a criar. Em 1972, já estava em Londres, fazendo sapatos para Ossie Clark, na época o mais famoso estilista da cidade. No ano seguinte, o designer abria sua primeira loja, sediada em Chelsea, famoso bairro da capital britânica. Da experiência como cenógrafo tirou a dramaticidade e a arquitetura surpreendente que imprime nos pés femininos, com shapes e saltos inovadores e acabamento perfeito - até hoje o designer acompanha pessoalmente a materialização dos seus desenhos, da produção ao marketing.

Empenho e criatividade ímpares levaram Manolo a calçar coleções de grandes estilistas, como Jean-Paul Gaultier, Zac Posen, Calvin Klein, Carolina Herrera, John Galliano, Versace, Dior… Ganhou diversos prêmios, entre eles, o concedido anualmente pelo Council of Fashion Designers of America (CFDA), em 1987, 1990 e 1998. Também na década de 1990, Madonna declarou que calçar um Manolo era melhor do que fazer sexo, o que transformou o sapateiro em estrela internacional quase que imediatamente. Assim, não foi surpresa quando, na série ‘Sex and the City’, Carrie Bradshaw, vivida por Sarah Jessica Parker, se declarou viciada na grife. Em 2005, Manolo chegou ao cinema: desenhou os sapatos de Maria Antonieta no longa homônimo de Sofia Coppola e ajudou a figurinista Milena Canonero a conquistar o Oscar de Melhor Figurino.

Raio-x

- Características: sapatos extravagantes para mulheres idem.
- O que só ele tem: salto stiletto reconhecido à distância.
- Quem usa: Madonna, Sarah Jessica Parker, Lady Gaga.
- O melhor: acabamento perfeito em modelos moderados ou carnavalescos.
- Preços: de US$ 600 a US$ 1.500.


Artista das formas: Pierre Hardy

Formado em artes, dança e na alta-costura francesa, Pierre Hardy conquista fãs pelo mundo criando sapatos cheios de teatralidade, luxo e ousadia. Seus primeiros passos rumo ao estrelato foram dados na maison Dior, em 1988, quando galgou o posto de designer dos calçados da grife. Dois anos depois, também encabeçava o footwear da Hermès. Tamanho gabarito levou o francês a lançar marca própria na primavera de 1999, mas sem abandonar parcerias importantes, como a firmada com Nicolas Ghesquière, da Balenciaga, em 2001. Hardy ajudou a manter a casa entre as mais progressivas do design mundial e teve sua reputação turbinada como sapateiro… Sapateiro que também foi joalheiro e ilustrador de revistas como ‘Vanity Fair’, ele é até hoje professor de cenografia na Ecole Supérieure d’Arts Appliqués Duperré, de Paris.

O vasto currículo em artes gráficas faz com que Hardy despreze a história da moda e suas tendências na hora de criar: ele diz ter o design e a arquitetura como pontos de partida. Adota linhas limpas, cores neutras, mas os volumes são esculturais, sustentados, quase sempre, por saltos stiletto - indícios da dramaticidade e do equilíbrio adquiridos com a dança. Tiras se unem paralelas ou entrelaçadas, às vezes acompanhadas de adereços inusitados, como paetês gigantescos e pelos. “Eu amo meus sapatos porque eles são puramente tecnológicos e estilosos, não têm nada a ver com tendências. E meu desafio é fazê-los cada vez mais glamourosos”, disse certa vez ao jornal inglês ‘The Independent’. Além de ostentar estrelas como Madonna entre sua clientela, Hardy coleciona prêmios. Em 2006, foi eleito o Melhor Designer de Sapatos pela revista ‘Wallpaper’ e, em 2008, Melhor Designer de Acessórios pela ELLE londrina.

Raio-x
- Características: sapatos dramáticos e esculturais.
- O que só ele tem: arquiteturas únicas, que independem de tendências.
- Quem usa: Cameron Diaz, Nicole Kidman, Rihanna, Madonna, Uma Thurman, Nicole Richie.
- O melhor: a profusão de tiras, paralelas ou tramadas.
- Preços: de US$ 400 a US$ 1.500.


Old school: Roger Vivier

Ele foi o criador de saltos finíssimos e aerodinâmicos que se perpetuam até hoje em sapatos femininos, para delírio das mulheres e terror dos ortopedistas. Em 1954, o francês Roger Vivier calçou uma coleção de alta-costura assinada por Christian Dior com peças apoiadas em pinos de madeira e liga metálica, finos como um lápis. Nascia o stiletto heel, ou salto agulha. Cinco anos depois, veio o shock heel, curvado, quase um côncavo em pé, tendência ressuscitada no ano passado. Em 1963, Vivier revolucionou outra vez, lançando o comma heel, uma verdadeira vírgula sob o sapato. Todas essas invenções, inspiradas pela música e pelas aulas de escultura na Ecole des Beaux Arts, passaram a ser reproduzidas e reinterpretadas por outros designers ao longo das décadas, tornando-se imortais. O talento único de Vivier atraía clientes como Ava Gardner e até a Rainha Elizabeth II - em 1953, ela usou um modelo exclusivo desenhado pelo francês durante a cerimônia de sua coroação.

Não eram apenas as formas e os volumes revolucionários que o artista desejava ver as mulheres usando. Vivier também se preocupava com praticidade e, ao criar uma confortável sapatilha ornada na ponta com uma fivela retangular e cromada, acabou inventando também o seu maior símbolo. Apresentado na coleção de Yves Saint-Laurent inspirada em Mondrian, em 1965, e exibido por Catherine Deneuve no filme ‘A Bela da Tarde’ (1967), o modelo virou objeto de desejo mundial. Ainda hoje celebridades internacionais desfilam com orgulho a sapatilha e sua icônica fivela, ou sapatos de saltos imensos e curvados carimbados pelo símbolo cromado. Nascido na Paris de 1907 e morto em 1998, Vivier - cuja arte brotou em uma pequena fábrica pertencente a amigos de seus pais - possui criações expostas no Costume Institute do Metropolitan Museum of Art, em Nova York, no Victoria and Albert Museum, em Londres, e no Musée du Costume et de la Mode, no Louvre. Desde 2004, a marca está sob as rédeas do diretor criativo Bruno Frisoni, que se mantém fiel ao espírito do criador.

Raio-x

- Características: sapatos ora estonteantes ora casuais.
- O que só ele tem: a fivela retangular cromada, por vezes cravejada de pedras ou feita de tecido e couro.
- Quem usa: Katie Holmes, Gwyneth Paltrow, Carla Bruni, Cate Blanchet.
- O melhor: saltos finíssimos e aerodinâmicos.
- Preços: de US$ 300 a US$ 2 mil.


Top da realeza: Jimmy Choo

Era previsível a presença de Jimmy Choo entre os grandes nomes do footwear mundial. Com apenas 11 anos, o malásio descendente de chineses já fazia calçados. Sua família tinha tradição na sapataria. Por isso, não foi difícil descobrir as próprias aptidões. Ao terminar o colegial, deixou Penang, na Malásia, e se mudou para Londres, onde cursou a Cordwainers Technical College, hoje London College of Fashion, uma das mais conceituadas faculdades de moda do mundo. Como os pais não possuíam recursos, Jimmy se sustentou trabalhando em restaurantes. Dificuldades financeiras, entretanto, não impediram que o prodígio se formasse com louvor, em 1983, e abrisse, três anos mais tarde, seu primeiro ateliê, em Londres.

O talento nato mostrado pelo jovem designer começou a fazer barulho e atraiu a atenção de Tamara Mellon, então editora de acessórios da ‘Vogue UK’. Oito páginas com as criações de Jimmy foram publicadas pela revista, em 1988, tirando o malásio do anonimato. Gente importante começou a frequentar seu ateliê. Tamara, vendo ali um potencial para cifras muito maiores, comprou 50% da grife, em 1996, e a transformou numa gigante fashion. Fábricas italianas passaram a produzir os sapatos em larga escala e novas lojas foram abertas. Na mesma década, Jimmy Choo ganhou sua mais reluzente fã: a princesa Diana. Fascinada pelas linhas elegantes, femininas e sexy desenvolvidas pelo sapateiro, Lady Di comprava dezenas de pares a cada olhada na vitrine. Em 2001, Tamara adquiriu toda a marca, por 30 milhões de libras. Mesmo fora do jogo, no ano seguinte, o designer recebeu da rainha Elizabeth II a Ordem do Império Britânico, em reconhecimento aos seus serviços à indústria de moda inglesa. Em 2004, a grife foi vendida para o grupo Phoenix Equity Partners, por 101 milhões de libras.

Raio-x

- Características: sapatos elegantes e delicados com pitadas de ousadia.
- O que só ele tem: a sandália Quinze, com tiras em curva, cravejadas de cristais, e tule sobre o peito do pé.
- Quem usa: Sandra Bullock, Meryl Streep, Jennifer Aniston, Angelina Jolie, Michelle Obama.
- O melhor: as plataformas meia-pata, que fogem da vulgaridade.
- Preços: de US$ 400 a US$ 2.500.


Classe made in Italy: Sergio Rossi

O ofício ele aprendeu com o pai sapateiro, nos anos 1950, em Romagna, Itália, mas a arte de adornar pés foi esculpida em Milão, onde Sergio Rossi estudou por dois anos. Em 1966, começou a vender suas criações na cidade de Bologna e teve o talento reconhecido pelo estilista Gianni Versace, cujo nome crescia junto ao revival cultural e artístico vivido pelos italianos naquela década. Os anos 1970 vieram e uniram os dois designers nas passarelas de Milão, carimbando o nome de Sergio Rossi no mundo fashion internacional. A década seguinte foi de expansão. O italiano inaugurou sua primeira loja própria em Ancona, dando início a uma renomada e fértil rede que se espalhou pelo globo: Turim, Forença, Roma, Bruxelas, Nova York, Los Angeles, Londres…

O crescimento era tamanho que, entre 1980 e 1999, a grife Sergio Rossi ganhou duas novas lojas por ano. Também nessa época o designer firmou mais parcerias de ouro: criou coleções para Dolce & Gabbana e Azzedine Alaïa. Com seu sucesso baseado em peças clássicas, de qualidade tipicamente italiana, Rossi despertou o desejo não só das mulheres abastadas, mas também do grupo Gucci, que acabou comprando a marca em 1999. No negócio, Sergio Rossi deixou de ser proprietário da grife, mas continuou nela como diretor criativo. O posto durou até 2006, quando Rossi se aposentou e Edmundo Castillo deu continuidade ao seu legado. Hoje, a direção de criação está nas mãos de Francesco Russo.

Raio-x

- Características: sapatos clássicos de qualidade made in Italy.
- O que só ele tem: o couro e o veludo da mais alta estirpe.
- Quem usa: Jennifer Lopez, Diane Kruger, Penelope Cruz, Anne Hathaway, Kristin Stewart.
- O melhor: os escarpins, sempre irretocáveis.
- Preços: de US$ 300 a US$ 1.500.


Por Márcio Oyama


<<