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:: Ser nada, ser único



(05/12/2005)


Sou nascido e criado no Brasil, mas me chamam de japonês. Fico puto, indignado, só que engulo a seco e me calo - como um bom nipônico.

Quando vivia no Japão, não entendia a cabeça daquele povo plastificado, empacotado para presente, programado como uma máquina de lavar roupa. Afinal, sou brasileiro.

Vejo a lama em que este país afunda e, às vezes, me pego julgando - “brazuca é foda, não muda nunca” -, munido de todo orgulho e distanciamento de um japa típico.

Descobri cedo que não tenho terra nem nacionalidade. Coisa que seria comum em uma nação de imigrantes, mas não é. Aqui, netos de europeus, por exemplo, não são chamados de “portugas”, “italianões” e “espanholitos” no meio da rua. Nem ficam conhecidos como “aquele alemão”, aquele “polaco”. São brasileiros, pensam como brasileiros, se enxergam como brasileiros. A vantagem deles sempre foi uma só: não carregar a descendência na cara.

Com o Japão nas fuças, viro japonês automaticamente, mesmo com certidão de nascimento, RG e passaporte tupiniquins. Entretanto, o meu puríssimo sangue nipônico não evita que, com o Brasil nos documentos e na língua, eu vire estrangeiro do mais baixo escalão na terra do sol nascente.

Essa falta de identidade, de chão, sempre teve na minha existência o peso de uma grande sacanagem do destino. E lutei contra ela. Tentei me encontrar na colônia, fechado em rodas de japas, mas não me vi por inteiro. Fora dela, renegando cultura e tradição, também fiquei aleijado. Como resultado, contaminei todo o resto da minha vida com o indefinido, um pé cá, outro lá: virei um jornalista que odeia perguntar, um crente pervertido, um porra-louca neurótico, um refinado no lotação. Sushi com feijoada.

As respostas, a tal identidade, ainda não encontrei. Mas descobri que posso tirar vantagem desta ausência desistindo de combatê-la. Há muito tempo me desobriguei de ser alguém. Ou de ser um só. Hoje, não sendo nada, sendo vários, tenho uma só certeza: sou único.


Por Márcio Oyama


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