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:: Somos ridículos



(13/07/2016)


Como necessitava ela, Clarissa, que os outros manifestassem agrado quando chegava, pensou, voltando para Bond Street, aborrecida, pois era uma tolice ter segundas intenções para fazer as coisas. Antes ser dessas criaturas como Richard, que faziam as coisas por si mesmas; enquanto ela - pensava, esperando para cruzar - , ela não as fazia simplesmente, por si mesmas, mas para que os outros pensassem isso ou aquilo; uma perfeita idiotice, sabia-o (agora o policial erguia a mão), pois ninguém nunca se deixava iludir novamente.


Já se passaram 91 anos desde que Virginia Woolf publicou 'Mrs. Dalloway', sua obra-prima, e ainda somos ridículos como Clarissa Dalloway. Quase um século nos separa da fútil personagem criada pela autora inglesa, mas continuamos pensando em qual presente levar para Evelyn Whitbread no hospital, algo "que pudesse distraí-la e fazer com que aquela mulherzinha indescritivelmente seca aparentasse cordialidade por um momento".

Sim. Seguimos ridículos como a nobreza londrina de 1925. Ridículos, diariamente ridículos, ansiando por likes no Facebook e curtidas no Instagram. Medindo o nosso valor com a quantidade de joinhas e coraçõezinhos angariados ao fim do dia. Implorando por sorrisos e afagos nos grupos do Whatsapp. Querendo até a atenção de quem nos bloqueou e o amor de quem nos excluiu.

Somos ridículos quando precisamos de plateia virtual para acreditar na realidade da nossa própria relevância. Somos ridículos quando temos a autoestima limitada às cartilhas de um apanhado de redes sociais. Somos ridículos quando dependemos da validação alheia para existir.


Por Márcio Oyama


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