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:: Vivendo morto



(11/09/2016)


Minha avó materna vai fazer 101 anos daqui a dois meses. Um século e um ano de vida. Que alegria, não? Que bênção! Pois é. Nem tanto. Por uma imensa sacanagem do destino, a saúde de ferro que a trouxe até aqui, de repente, virou uma maldição. Um castigo.

Minha avó se cansou de viver.

Seu corpo não adoeceu, mas definhou. E ela está farta de dar trabalho. De viver presa a uma cama. De não conseguir sequer comer sozinha.

Minha avó às vezes acorda e se confunde: "Estou morta ou estou viva?" Em dias piores, desabafa: "Por que ainda não morri? Deus me abandonou?"

Pois é. Sei bem como ela se sente. Sei bem como alguém pode viver já estando morto. "Tive tantas vidas / Desde que sou criança / Agora eu percebo / Quantas vezes eu morri", canta Madonna em 'Nobody Knows Me'. Ok, Madonna não é Clarice ou Virginia, mas espelha Allen Ginsberg na canção. "Para renascer, você precisa morrer primeiro", ensinou o poeta beat americano.

Mesmo com 60 anos a menos que minha avó, sinto que vivi demais. Passei da hora. Nasci, morri, renasci... Tantas vezes. Tal qual Maggie à la Ginsberg. E me cansei. Tal qual minha avó.

Vidas diversas e eus diversos acabaram me afastando dela. A 'batian'. Vovozinha? Jamais. Sempre a 'batian'. Mulher forte, matriarca da família, dona de princípios, fé e tradições. Atenciosa com filhos e netos, nunca se esqueceu de nenhum em suas orações diárias. E, desde que eu virei gente, ela só pensa em uma coisa: me ver casado. Com uma mulher, obviamente.

Pois é.

"Tive tantas vidas / Agora eu percebo / Quantas vezes eu morri."

Nasci um fracote. Mirrado e acuado. Faleci para renascer religioso. Busquei Deus, mas me descobri gay. Morte lenta e dolorosa... Voltei fortão. Virei jornalista e tudo. Conheci o mundo. Me espalhei. Acabei assassinado. Juntei meus cacos e ressuscitei revolucionário. Saí do armário. Descobri o amor. Me casei. Virei "um cara de relacionamento sério" - radiante e feliz como nunca.

Só que a idade chegou, matando aquele jovem lustroso. Ressurgi como um velhote, carregado de passado e desesperança. Ainda resta vida para alguém tão vivido?

Morrendo de novo. De novo? Pois é. Desta vez, entretanto, com uma preguiça monstra de renascer.

Vivendo, sim. Mas vivendo morto.

Me afastei da 'batian' em busca de vida. Ironicamente, agora, a morte nos une outra vez. Assim como minha avó, espero, lá no além, acordar e não ter dúvidas. "Estou vivo. Finalmente, vivo para sempre."


Por Márcio Oyama


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