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:: Volta ao Brasil ainda é sonho dos dekasseguis



(Estadão, 05/06/2006)


63% dos homens e 43,8% das mulheres que estão no Japão desejam regressar


Quase 30 anos se passaram desde que saíram do País os primeiros brasileiros com destino às fábricas japonesas, movidos pela esperança de que, daquelas linhas de montagem, nascesse a independência financeira na terra natal. Hoje, os 274,7 mil conterrâneos em solo nipônico já formam a terceira maior comunidade local de estrangeiros (perdem apenas para os coreanos e os chineses) e boa parte dela vive no arquipélago há cerca de duas décadas. O objetivo inicial, no entanto, não mudou.

Uma pesquisa feita pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) em parceria com a Associação Brasileira de Dekasseguis (ABD), em 2004, mostrou que 63% dos homens brasileiros residentes no Japão ainda pensam em voltar ao Brasil e abrir um negócio próprio. Entre as mulheres, o índice é de 43,8%. Os que não sonham com empreendimentos planejam aplicar os recursos em imóveis ou rendimentos financeiros.

Para concretizar seus projetos, os dekasseguis enviam anualmente ao País cerca de US$ 2,2 bilhões, segundo levantamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) divulgado em 2005. Com o montante, os brasileiros em solo nipônico já formam a comunidade verde-e-amarela instalada no exterior que mais remete dinheiro ao País, ficando à frente até da residente nos Estados Unidos, que responde por cerca de US$ 1,9 bilhão anuais em remessas.

“O valor enviado pelos brasileiros no Japão representa cerca de 45 mil novos empregos criados por ano no Brasil. Por isso, acho que o nosso governo necessita dar muito mais atenção a este contingente, que consideramos de exilados econômicos”, analisa o presidente da Câmara de Comércio Brasileira no Japão (CCBJ) e representante da Petrobrás em Tóquio, Osvaldo Kawakami.


A maioria fracassa

É justamente na falta de atenção e apoio que o País perde boa parte dos recursos aplicados aqui pelos imigrantes regressos. A pesquisa do Sebrae feita com a ABD aponta um dado alarmante: apenas 14,6% dos homens e 8,2% das mulheres que retornaram ao Brasil e abriram um negócio próprio em 2004 tiveram sucesso no empreendimento. Todo o resto acabou perdendo os recursos em investimentos fracassados.

Segundo Kawakami, a principal causa deste insucesso é o desconhecimento da área empresarial. “Há muitos que vão atrás da conversa de parentes e amigos, sem pesquisar direito o negócio. Também é grande o desconhecimento com relação a legislação, marketing, finanças.” Para Kawakami, o ideal seria que, antes de se lançar em um negócio, os brasileiros tentassem trabalhar nele como estagiários ou empregados. “Mesmo assim não é fácil. Não é todo cozinheiro ou garçom que consegue se tornar dono de restaurante.”


Ponte aérea Brasil-Japão

Novamente de bolsos vazios, os dekasseguis ‘falidos’ tendem a retornar às linhas de montagem japonesas para recuperar o valor perdido. Não são raras as histórias de conterrâneos que já transformaram o percurso entre Brasil e Japão em ponte aérea, justamente por conta do grande número de tentativas infrutíferas de se tornarem empreendedores por aqui e das voltas à dura fonte de recursos.

O brasileiro Alexandre Ricardo de Aragão Batista, de 32 anos, é um dos dekasseguis que já se habituaram ao vaivém. Pela terceira vez no Japão, ele conta que aprendeu errando: tentou investir em um salão de beleza para a mãe sem conhecer o ramo e acabou falindo. Depois, ainda teve experiências traumáticas com imóveis.

Outro dado apontado pela pesquisa Sebrae/ABD mostra que a grande maioria dos brasileiros instalados no Japão é jovem e não possui curso superior. De acordo com o levantamento, 70% dos dekasseguis têm menos de 40 anos e decidiram tentar a sorte na terra do sol nascente sem a conclusão de uma universidade. O índice de homens com curso superior fica em torno de 11%, enquanto que, entre as mulheres, sobre para 13%.


A terceira maior comunidade

O último censo japonês aponta os brasileiros como a terceira maior comunidade estrangeira no Japão: já são 274,7 mil conterrâneos vivendo na terra do sol nascente, que, em números, ficam atrás apenas dos chineses (462.396) e coreanos (613.791). Se no início dos anos 1990 mais de 60 mil brasileiros embarcavam para o Japão anualmente, hoje, as taxas são bem mais baixas. De acordo com o governo japonês, entre os anos de 2002 e 2003, houve um acréscimo de apenas 2,4% na comunidade verde-e-amarela - ou 6.388 pessoas.


Por Márcio Oyama


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